O mundo ensina

Aninha sempre doou brinquedos. Minha estratégia é falar sobre o assunto logo depois do aniversário, dia das crianças e natal, pois são as datas que ela mais ganha presentes e aí fica mais “tranquilo” abrir mão dos mais antigos. Inclusive ela tinha o maior cuidado de escolher brinquedos inteiros, com todas as peças e eu morria de orgulho.

Mas eis que do ano passado pra cá ela disse “não” para todas as tentativas que fiz. Até comentei com umas amigas que estava assustada com o egoísmo repentino dela.

Aí ontem saímos pra dar uma volta com a Pepina pela quadra e ela viu – não eu – uma senhora mexendo na caçamba de lixo que fica em frente ao supermercado. Ficou olhando fixamente até que eu percebi para onde ela olhava. Não dissemos nada e caladas voltamos pra casa.

Hoje ao acordar ela mal me disse bom dia e já propôs:

“Acho que eu poderia doar uns brinquedos, mamãe. Vamos pegar uma caixa no supermercado e hoje à noite já separo umas coisas. Aí juntamos com aquelas roupas que você separou pra doar e colocamos também um pouco de arroz, feijão e bolacha, tá?”

Tem coisas que a gente ensina, mas a maioria ela vai aprender é no mundão mesmo!

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Pegando Aninha na escola

– Uns meninos aí não curtiram minha máscara de Carnaval.

– Ah, filha, problema deles. Quem tem que curtir é você, deixa pra lá.

– Mamãe, eu tomei uma atitude, não deixei pra lá não.

– O que você fez?

– Calma, quando você parar o carro te mostro!

Chegamos em casa, ela desceu do carro e saiu andando sem me esperar.

– Ei mocinha, que tá fazendo? Espera a mamãe.

– To te mostrando o que fiz com os meninos. Eles deram a opinião deles que eu nem perguntei, aí nem respondi nada, sai andando!!!

 

A primeira história

Aí ontem enquanto eu corria pra fazer o jantar, chega Aninha com um desenho bizarro (ela odeia desenhar e deixa claro isso nos bonequinhos com linhas retas e um círculo que lembra bem de longe uma cabeça).

– Mamãe, para o que você tá fazendo que vou te contar a minha primeira história.
– Você lembra a primeira história que te contei, filha?
– Não, mamãe, a primeira história que EU inventei.

(mães nem sempre entendem as crias)

– Conta, Pi.

Vou resumir porque era tipo g.i.g.a.n.t.e:

Um menino branco e um menino negro na escola. Menino branco não quer brincar com menino negro. Xinga o menino negro que não deixa barato e leva o caso para a direção da escola, que chama as duas famílias. A família do menino branco fica passada com o fato de ter um filho racista e o deixa de castigo.

(interrompi a história no meio pra pedir que ela contasse tudo de novo pra eu fazer um vídeo, mas ela respondeu: “contar tudo de novo, tá doida? Não lembro mais o começo).

O menino branco, no dia seguinte, continua sendo racista. Menino negro leva novamente o caso às “autoridades da escola” <<<<< ela disse exatamente isso Emoticon grin ….famílias são chamadas novamente. Mãe do menino branco chora de vergonha, mãe do menino negro chora de raiva. Menino negro e menino branco ficam sem se falar por alguns dias. Menino branco tenta ser amigo do menino negro, que aceita a amizade, mas com uma condição: “m.e.l.h.o.r.e, menino branco”.

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